sábado, 7 de novembro de 2009
Dela. É ela!
Sem destino e sem caminho
Rumo sem volta, poesia lida
São notas na viola do Paulinho
É mar azul que nunca seca
Orgulho de ter Zé Keti como marco
Água da sede do Zeca
A voz e os versos do Monarco
É amor que não se traduz
Majestade de berço em Oswaldo Cruz
Sangue azul correndo na veia
Misturado com a nobreza de Candeia
Do carnaval é a própria bandeira
Legado de Paulo e João Nogueira
Emoção que a nada se compara
É inspiração para a música de Clara
É porta aberta para Luiz Ayrão
Melodia cortejando Madureira
Águia na cabeça e no coração
Dodô a girar o pavilhão pela vida inteira
Portela é devoção quando a sirene toca
História com passado rico e sem final
É ter, na velha guarda, o imortal Noca
Saber que carnaval é sinônimo de Natal
terça-feira, 6 de outubro de 2009
Da deliciosa doçura dela
Voa, vida! Valha-te do vento e vislumbre seus verbos na virada da vista. Viaje mas volte pra uma visita; quem sabe vizinha. Faço vista grossa, vesga e só te vejo de véspera, num vestido. Verdade que viver assim é vago. Mas valentia é vanguarda e vi vários vararem seu veneno e te vencerem, enfim. Um vinho e o vácuo do violino dizem: venha para uma valsa! E você vem, vaidosa de valores e envolta em véu, me vende à vista mais um valioso verso. E que verdadeiramente veterana, avessa à velocidade, nossa vez se vá. Você me vence e me vicia.
Tente, ternura! Teime em ter um testamento ou um terreno. Terás o que testar e tentarei ser testemunha tua. Tomara que seja tardio seu titubear. Que tombe a toalha a um toque trivial. E que tenha em meu tumulto toda a tranqüilidade pra trilhar seu trajeto. Todavia, trate o tempo como talismã e se atire à tentação. Tudo que é típico nós tomamos e toleramos como teoria, sem tragar o temor. Tuas tramas são títulos e a traição um terço do túmulo. Tranque a tragédia e estenda o tapete: transformo tristeza em turquesa e, na tangência do túnel, teimo que não foi à toa. Transcrevo-te temperada em tinta, trechos, textos e traços.
Pense, pequena! Pasme com o passar do passado. Precisamos parar de postergar o pretérito. É puro presente! Na partitura, minhas palavras perdem o porquê, porém perenes ao pensar e perecíveis no pisar, padecem de uma postura própria. Poucas são na prática. É pó em poesia a precipitar-se pro seu peito. Poupe-me da pregação se percebo que a perfeição lhe persegue ao paquerar minha prosa. Pretendo sim te possuir, te prender na prática e na previsão de que podemos perdurar pousados na pedra sob o pôr-do-sol. Um perdão no papel e páginas porvir. Ponha-se como parte desse par.
Faça, flor! Fale, falhe, mas não falte. Fizeram nosso filme ao som de flautas. Filmaram minha face sem fôlego a cada fração do que te forma. Frear minhas frases já é fútil. É furtar-se da fonte e da franqueza. Te fito pela frente, olhar fixo e flagrante no foco. A felicidade faz-se por um fio fino - porém firme – que filtra nossas falas e fabrica a fé. Fintamos a falsidade e favorecemos a filosofia. Fato é que fome, para o faminto, é só o fluxo da fobia. E o fim, para nós, é folclore, ficção e fantasia.
Ame, amor! Amanheça acolhida, nunca abandonada ou ausente, no meu abraço. Afaste-se e vá adiante após amanhã. Agora, alivie minha alma, alvo de assalto das suas artimanhas, e atire-se sem atraso na arrogância desse autor. Posso ser aquilo, aquele, arbitrário, antipático e antiquário de anteontem. E assim assino abaixo. Mas sou apaixonado e ainda arquiteto de arco-íris. Se apronto é porque te aprecio. E estou pronto pra me apressar nos aplausos. Azar do antigo, pois te apetece a arte apunhalada no ato. Antes fosse artista pra atrair sua atenção. Sou arredio, mas aborto meus apelos se você me acompanha. Afinal, se ache nesse alguém, na minha afeição e no nosso altar: aceite e abra o apetite para alegria.
segunda-feira, 21 de setembro de 2009
Do risco
Nada mais é que uma letra arranjada após a outra para formarem uma palavra insensata. Uma insensatez atraindo outras em busca de um bom verso. Uma porção deles brandindo numa lógia inexata. E o aforismo gritando pra não sair reverso.
É ver, dessa vontade infalível, a caneta virar escrava. E o seu pensamento correr mais longe que a coleira. Algo como sucumbir a um desejo que o peito lhe crava. Querer pular do precipício mas desistir na beira.
Pode ser só tietagem de poesia. Tentar ser molde de quem já foi modelo. Traduzir da dor um garrancho em primazia. Riscar o pensamento para nunca mais perdê-lo.
Já ouvi que é alimento da alma. Mas quem se sacia com desilusão? Pra mim, é o mar quando perde a calma. Um vendaval afunilado em inspiração.
Versar é esquivar-se da inglória. Mudar o nosso destino com pontos de interrogação. Prolongar em dezenas de parágrafos essa nossa história. Estender uma linha para além da sua negação.
Ser escritor é prometer, não cumprir e nem arcar com a dívida. Tange a insanidade e pende mesmo pro egocentrismo. É não suportar a folha lívida. E padecer de um letrado maneirismo.
Quem escreve ainda não aprendeu a se ler. É crer na tinta e só nela confiar. Rezar essa escritura sem nunca se converter. Confundir adjetivos entre o amar e o odiar.
Tudo isso para não saber quando parar. Para desmentir a física e juntar emoções no mesmo espaço. Ignorar as margens e deixar o punho voar. Abreviar as glórias e rebuscar o fracasso.
Redigir é contravir a arte. Por ser artista só quando a inspiração lhe vem. Viver na sombra e saudosista quando ela parte. Pesar a dor muito mais do que convém.
domingo, 30 de agosto de 2009
Da moldura
sábado, 8 de agosto de 2009
Da minha história
Era uma vez um texto fadado ao fracasso. Repleto de histórias e metido a imprudente, tentava fazer correr essas linhas umas acima das outras, certo de que cabe a elas cumprir uma existência parcial: dizer o impronunciável. Almejo sumariar muitos sentimentos, remontar incontáveis lições e partilhar todas as minhas histórias nesses poucos parágrafos a que me atrevo.
Essa minha literatura clandestina me criou sincero. Por isso, não hesito em dizer que jamais chegarei ao fim desse texto O ponto final dele deve ser tido como fim do prelúdio e início da história, na verdade.
Quisera eu que minha caneta soubesse escrever tudo o que sinto. Estaria agora, em seu ofício, pintando, orgulhosa, tudo isso que me faz. Estaria relembrando em tinta viva tudo que trago a esta vida para qual fui apresentado. Caneta incansável seria. Desfilaria quinhentas, mil páginas marcadas de boas lembranças. Derramaria minha memória no papel, contando em detalhes, vírgula após vírgula, dos abraços e do carinho irrestrito. Eu só teria o trabalho de, mais uma vez, deliciar-me ao relembrá-los e revivê-los na ponta dos meus dedos.
Mas ela só sabe escrever histórias, lúdica que é. E assim tentará se fazer entender.
Recordo-me de uma vez em que estava eu, remontado e destemido, na Espanha antiga. Quis ser Dom Quixote e fui; louco, inclusive. Ele foi Cervantes: ergueu minha espada, estrebuchou meu imaginário cavalo e traçou meu destino. Outra vez quis voar e ele, Dédalo, me fez Ícaro sem fim. Já fomos dois mosqueteiros contra o mundo e, quando decidi abandonar a ordem, ele, por simpatia e lealdade, embainhou sua espada também.
Em uma oportunidade quis ser rei. Ele me provou que a nobreza era virtude não conquistada e, por isso, mal quista. Tratou de me enveredar para a plebe e me ensinou a ser exatamente como os outros. Já fomos piratas juntos, singrando no mar sem nome que minha imaginação salgou. No nosso barco, ele embarcou primeiro e remamos juntos para ver o que nos guardava a próxima onda. Fui Joana D’Arc em uma ou duas passagens e ele foi quem assoprou as chamas e me tirou do fervo. Aliás, já fui enfermo enquanto ele foi todo zelo. Enquanto escrevo – e sempre escrevi - ele me olha por cima dos ombros sussurrando os versos, soprando as rimas e escritor vai me fazendo.
Quando eu era resteleiro conservador, ele era Camões e suas expedições cegas de entusiasmo. Quando era o entusiasta, ele era a mais assertiva razão. Estivemos juntos nas Cruzadas e contra elas. Carregamos a cruz e esquecemos dela quando a risada valia mais que uma prece . Em florestas em que o céu se escondia atrás das folhas, ele sempre foi minha bússola. E da vez em que estive no espaço e me perdi entre as estrelas, ele foi meu cruzeiro do sul. Ele só não foi o que eu não quis imaginar.
Político, eu quis ser de esquerda. Ele foi canhoto. Depois, mudei: quis ser direito. Ele foi contra. Daí quis viver de carnaval e ele se fantasiou de jurado com incontáveis notas dez para me jurar. Lembro que até fomos romanos. Eu autocrata com sede de poder e ele populista, banhado em generosidade. No Egito, construímos as pirâmides e foi ele quem carregou todas as pedras. Mas quando eu quis ser viajante, ele foi às lágrimas. Sabia que essa história eu teria de contar sozinho. Porém, ele me segue de perto, espelhado no meu caráter a cada nova página e esquina que viro.
Desde e para sempre, obrigado por ter escrito minha história, pai.
quinta-feira, 23 de julho de 2009
Do prefácio esperança
Não mais sei o que espero. Só espero. Talvez por hábito. Por essa espera ser o que me resta de ti; a última coisa que ainda fazemos juntos: a mim cabe esperar e a você, não vir.
Mas sempre foi assim, dessa maneira romântica ao extremo. Se me falta pompa e um ramalhete de rosas, é porque não rimava com o resto do verso. É tudo literatura enrustida de encenação. Um pretenso sentimento para guiar minha desonrosa caneta. Finjo não respirar sem o ar que você suspira ao meu descaso. Mas nada é por acaso. Se te permito hoje me torturar desse jeito é porque inspira. Não consigo viver sem ter sobre o que escrever. Por isso, não descalço essa humildade que prende meus pés e minha razão ao chão.
Aí, vivemos assim, procurando um romance de verdade para chamar de meu; seu; nosso, enfim! Mas não estamos sempre, em cada folha que viramos, à procura disso? Porque, quando chegarmos ao último parágrafo, essas exuberâncias descreverão os versos sob os quais guardaremos o sentido conosco.
Sou meio tonto, admito. Mas me faço de completo quando tramam para me apaixonar. Ofereço de bom grado uma folha em branco e que escrevam até secarem a alma e alimentarem meu vício! Meu caráter é feito disso mesmo, desses rabiscos mal amados amontoados num diário difícil de ler-se. Aprendi que a esperança apaixonada é vã, mas que, com certeza, ela é o prenúncio de que outro bom verso está para nascer.
sábado, 18 de julho de 2009
Das dez coisas
1 – Os ônibus, além de serem guiados por australianos devidamente caracterizados como tal (leia-se: meias de lã cinzas até o joelho e chapéus ao estilo jack hanna), passam nos pontos em horários pré-definidos durante o dia todo. Portanto, se você quer pegar um ônibus aqui, tem que saber que horas ele passará por aquele ponto. E, por incrível, que pareça, a pontualidade funciona!
2 – Aqui eles adoram comida Thailandesa! Não me pergunte por qual motivo, razão ou circunstância. Meu organismo não vem apreciando muito, entretanto.
3 – 50 dólares é o preço que você será obrigado a pagar caso um guarda da cidade te flagre atravessando a rua fora da faixa de pedestres ou quando o farol não está verde para você. Detalhe: não interessa se está vindo carro ou se a rua está mais vazia que o Morumbi em jogo do São Paulo.
4 – TODAS as lojas – inclusive a praça de alimentação dos shoppings – aos sábados, fecham as 19h. E é isso. Se não gostar, volta pra casa!
5 – Em Brisbane tem mais indiano e asiático do que australianos. Os brasileiros vêm logo atrás.
6 – A Queen Street é um circo. Tem gente de todo tipo! Em menos de cem passos você é capaz de passar por dois neo-zelandeses tocando pop hits no violão, um aborígene soprando aquele tubo de madeira, koreanas com shortinhos minúsculos e pelicanos comendo o que cai no chão. Sério.
7 – O Hungry Jack’s parece o Burger King. Mas não é: o refil de refrigerante não é aguado.
8 – Nenhum supermercado, loja de conveniência ou lanchonete vende bebidas alcoólicas. Se você quiser comprar, deve ir às lojas específicas que só vendem isso. Provavelmente você encontrará um brasileiro inconformado.
9 – A internet daqui é um lixo! Eles são explorados pelas companhias que provém o serviço de conexão e nem sabem.
10 – Poucos aqui sabem o que é o Brasil, onde fica, como escreve, que língua fala e quantos habitantes tem. Para a maioria, “o Brasio é um país perto do Peru, que fala espanhol e tem o mesmo número de habitantes que a Austrália (20 milhões de pessoas)”. Mas eles conhecem o carnaval! Uhul!